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domingo, 18 de maio de 2008

Pool-Games








Certa vez, a tentar escamotear o bronze de camionista adquirido durante o trabalho, virando-me de lado a lado, em posições incómodas assumidas na espreguiçadeira, e a minha vaidade aos gritos mudos mandar encolher pançinha e entesar os ombros, reparei na senhora solitária aí ao fundo, dormitando ela, alheia aparentemente. Éramos quatro, nessa altura. Quatro machos, e em fila. Postas de carne roxa a depelar, grelhadinhos e pronto para consumo. Patéticos - soube o na altura. Abstraí-me, a observar o cenário. Um passo para trás e ver de fora. Eles lá iam chegando, aos poucos, primeiro dois, depois mais dois, mais um, mais três... e a senhora se ia virando, não se molhava se não no chuveiro, ficando nesse canto afastado. Jogos de Brasucas, Softball na piscina, e ela a levar com salpicos, claro. Mil desculpas...e nada....claro.
Passado uma hora ou tal, a senhora arruma as tralhas e passeia-se daí para fora, tranquila, digna, e sem palavra.
Mantive a panç(inh)a recolhida porque os gajos eram todos esculturais.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Vasos Comunicantes













Parte de dispositivo em modo de stand-by, com defluxo residual de radiação não-entrópica, em 'osmose' entre sistemas estanques de dimensionalidades enroladas de grandezas incompatíveis.
Supõe-se que o efeito, comparável ao de condensação em magnitude corrente, deriva do acoplamento aleatório de padrões - apenas exactamente repetitiveis quando superiores a Constante de Planck - e causando descontinuidade topológica com a consequente emissão de fragmentos do tecido espacial.
Estes resíduos dispersos seriam sintonizáveis mediante aplicação de um campo indutivo de frequências, que os alinharia em espaços de 'Calabi-Yau' de grandeza já comensurável, porém apenas no eixo perpendicular aos três do espaço comum, e com a exigência da omissão de Singularidades.
O dispositivo foi originalmente elaborado com a finalidade de canalizar e distribuir energias de baixa voltagem, mas a sua configuração estética-espacial promoveu o efeito residual referido em condições de luz na gama azul do espectro visível e com amplitude menor de frequência, coincidente com a recepção próxima de um sms poético, e - simultaneamente - com descargas subliminares neuronais, da parte do observador do fenómeno, durante considerações sobre o paradeiro do 'Gato de Schrödinger'.



quarta-feira, 2 de abril de 2008

Boiar









Acidentes acontecem, shit happens, e sereias nos levam a águas mais calmas... ?
Tanto quanto sei, são devoradoras, monstruosas, encantadoras, sedutoras,...
a perfídia encarnada, e bem encarnada.
Mas olhando bem, o que seduzia era a voz, do aspecto o mito não fala muito, não.
Atraiam para rochedos submersos para devorar os náufragos.
Há também uma versão mais aprazível, deixando os apenas presos numa ilha encantada...que elas habitavam. Aí já seriam belas? Comiam-nos devagarinho?
Promessas doces, ou projecções de homens que se fazem ao mar.

segunda-feira, 24 de março de 2008

A Curva do Espaço-Tempo













Ele recostou-se lateralmente ao balcão, o olhar turvo a tentar focar onde se tinha perdido em tempos - numa mancha difusa de perguntas com respostas tortas, de silêncios aos gritos de ferver a medula, e de desistências em surdina. Aguardava, por entre conversas vizinhas envoltas em ritmos pulsantes, por um desencontro fugaz e fértil, daqueles que são um 'quase'-encontro por não terem ou o lugar ou a hora acertada, nem o 'casting' ajustado.
Apaixonou-se já aí pela rapariga atrás do balcão.
Terão ter tido uma amizade importante durante o tempo plausível para ambos.

Anos depois lembrar-se-ia ainda com dor e gratidão de todos os desapegamentos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A Copa Pesada













Era um 'caça-nuvens' sem remédio. Sempre a ver quais ligações reveladoras poderia descobrir entre os meandros da vida. Tolo. Fazia registos meticulosos de correspondências remotas nos padrões do crescimento das plantas, ou perscrutava os sons da mesma matéria mas em espaços diversos para discernir o que os unia, porventura. Achava que a 'teoria dos strings' continha a solução e que as singularidades seriam um conceito pouco elegante, e demasiado humano. Mais tarde, deu-se ao trabalho de estabelecer congruências de padrões entre escalas de grandeza muito distantes. As vezes parecia que andava a procura de uma espécie de receita, vagamente alquímica, de forças místicas, - mas não. Segundo os relatos de pessoas próximas, apenas queria apanhar um cantinho que seja, e muito fisicamente, da dimensão mais acima. Não estava, esclarecia ele aos amigos, a falar do tempo, porque esse sempre seria aquela dimensão acrescida às outras, seria ele subjectivo ou enlaçado no espaço curvo, mas sim, sobraria sempre como veículo do movimento e da evolução.
Queria ficar com os dois pés no chão, mas interrogava o chão.
Não era o primeiro, sabia-o, bastava-lhe olhar para o Simultaneismo de Braque e Picasso, que inventaram na altura quando o Einstein se saiu com a sua primeira teoria, para perceber.
Sempre gostara do 'Uroboro', da serpente que morde a cauda, por unir o que está distante. Era um dos padrões transversais.
Tanto quanto eu saiba, ainda anda nessa - 'demanda' - um pouco insólita e distante da vida, mas para ele, se calhar, não é. Ele é que deve estar - à margem - quero dizer: Funciona, desempenha os papéis que os outros lhe impõem, mas assim quase por 'requisição' em vez de ser por vocação.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Cultos, com Ternura

Descobrí isto, essa história mais as pequenas telas, na gaveta onde dormem desde há mais de sete anos. Tenho de as partilhar, é uma jóia genuína.

Tinha chegado a uma pequena aldeia de nome
Boroas (nome fictício), situado algures no Alentejo, anichado num vale escarpado e húmido, quando todo o resto à volta crepitava de calor.
Existe, claro, uma igreja junto a um tanque caiado de água pública, a fazer rossio em paralelepípedo bruto, ainda mais afundado no vale fresco que o resto da aldeia. Estranho eu, por a igreja ter ar de majestade, mas deslocada. Embora simples, de azul e branco caiado e granitos pouco elaboradas, impõe-se firme e orgulhosa com alpendre aterraçado a encimar o pórtico, e duas escadas laterais a conduzir para o mesmo.
Senti-me atraído para este sítio, e sim, perante as portas todas cerradas, fui à tasca, à mercearia, desterrar alguém nessa hora tórrida e dormente que pudesse abrir a igreja. Uma jovem que se prestou, mais o pai dela, saídos de uma casa por cima do tanque, guiaram-me então e iam contando pelo caminho.
Lugar de culto peculiar, este, foi erigido na primeira metade do século XVIII por cima de um poço ainda existente, em adoração a Nª Sª de ...(...pois), milagrosa aparição essa, testemunhada por um pastor de cuja mão-cheia de vacas uma se teria despenhado por uma ravina, tendo nessa queda partido uma das suas quatro patas, e sofrendo ao fundo da escarpa e com a língua de fora em agonia - como muito bem se pode, ainda hoje, observar no fiel relato pintado sobre tela na igreja. Não havendo ainda milagre, o pastor em aflição se teria precipitado em busca de socorro à próxima 'Aldeia das Oliveiras' ( nome fictício) (a aldeia de 'Boroas', está visto, iria ainda nascer a volta de uma futura igreja, erigida no local de um futuro milagre), para aí juntar um grupo de homens afim de salvar a vaca de sua calamitosa situação. Porém, chegado ao local do desastre, o piquete de socorro teria encontrado a vaca calmamente ruminado o farto pasto, e com quatro patas incólumes a sustentar o tronco, a cabeça, e o rabo. Milagre evidente (agora sim), logo se dedicaram à obra da igreja nesse lugar, e foi um santeiro incumbido de esculpir uma Nossa Senhora, delicada, em marfim e a caber na palma da mão de um homem - obra essa que vi com os meus olhos e que me comoveu sinceramente pela beleza. Faz notar a jovem que a Santa retratada se distingue de todas as outras Santas por ter apenas uma das mãos. Olhando com atenção a preciosa imagem situada num nicho lateral à capela-mor, a dois metros e meio de altura e na penumbra, reparo de facto na falta da dita, da esquerda. Não posso, claro, deixar de inquirir sobre a razão dessa omissão, respondendo-me ela que assim foi feito porque, claro então, a Santa tinha dado uma mãozinha à vaca moribunda, não?
Sendo essa imagem da Santa tão humilde e pequena, incumbiu-se mais recentemente a outro santeiro de fazer uma nova, maior e de colorido esplendoroso, exposta devidamente na capela-mor, e que representa tão só a Santa como também o pastor em adoração e a vaca sucumbida a dor ( mas que mais se parece com um burro a coçar as costas no chão).
Não quero certamente faltar ao respeito das crenças e da sua vivência em convicção, mas custa-me presenciar a chocante falta de bom gosto e do saber fazer.
Tentando ignorar a imagem adorada, fico a saber que a história não acaba aqui. Como ficou patente, o milagre não foi testemunhado nem pelo pastor, nem pelos homens da aldeia. Uma fatalidade para qualquer milagre que se preze. Daí, e assim reza a história dos acontecimentos, contado agora pelo pai da jovem, os homens da aldeia mais o pastor, deparando com a vaca alegremente a pastar sem dar sinais de queda, de patas partidas, ou dores sofridas, e não havendo outra explicação senão a do milagre, ter- se- iam sentido na obrigação de achar testemunho desse mesmo. Teriam eles deparado - em local e hora oportuna - com um lagarto de descomunal dimensão (e o pai estende o braço, prolongando o ombro nu, para o lado, e enfia o dedo indicador da outra mão no sovaco exposto, para demonstrar o tamanho do bicho), que logo aí teria sofrido o sacrifício, e o posterior embalsamento, para ser exposto com referência na própria igreja, logo que concluída. Claro que, depois de ouvir este relato, fiquei curiosíssimo de ver a relíquia e inquiri sobre o seu paradeiro porque, nem nas penumbras mais escuras, nem na sacristia que cobre o poço, tinha reparado em nada que se parecesse com o tal bicho. Mas tenho pouca sorte, diz-me o homem, é que sabe, o lagarto foi muito cobiçado ao longo desses séculos. Apercebo-me pelo relato que se tornou hábito das noivas, ao saírem depois da cerimónia, surripiarem um pedacinho do abençoado testemunho do milagre para dar felicidade ao casamento, de modo que nos tempos recentes, a felicidade já só se fez representar pelas sobras ressequídas de um rabo escamoso. Chegado a esse estado pouco digno, a relíquia terá sido, poucos meses antes da minha visita, relegada para lugar incerto.
Consta ainda que a Santa tem o seu culto levado para o Brasil, onde a comunidade dos gaúchos lhe presta homenagem.
Deambulei ainda pelo vale atrás da igreja, vi a escarpa onde se terá passado o evento, passeei pelo ribeiro acima, e sim, acho que milagres acontecem.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

jogos de amor

É ao fim do dia, com a luz da anã branca já de rés, que ele se aproxima cautelosamente da fêmea. O perigo é iminente, o desfecho incerto. Embora ele ostente o seu porte superior, ela coloca-se em guarda sobre a ninhada, depositada do seu dorso para a areia, com uma determinação tenaz. Tem tudo a perder ou a ganhar, não arredará pé.
A noite repentina solta o arsenal.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Augúrio

... e sabes que mais? O gajo vive mesmo através das sombras do real. Desfocado, claro está, e plano, e cinzento. Tem a luz sempre pelas costas. Certo dia, lá por aquilo que ele chama dia, apanhou um espelho pela frente e não o compreendeu. Achava que... com' é que explico...enfim, deduziu lá na lógica dele que a imagem seria certamente uma projecção de dimensões superiores. Não se reconheceu sequer à primeira, foi preciso ir pela sua silhueta, pela postura do corpo, por tudo que conhecia da sua sombra, pela maneira de se mexer, por uma madeixa de cabelo destacada no topo do crânio ... só por esse tipo de indícios na silhueta da habitual sombra é que se convenceu. Vê lá, chegou ao ponto de, por ter descoberto um conteúdo colorido e de formas discretas na silhueta, achar que estava a ver o seu interior, alma e espírito incluído. Baralhou-se, ficou pior ainda do que já estava antes. Era mesmo só olhos, nunca sentiu nada - nem com corpo, nem por alma, nem no espírito - digo eu. Só pode, sei lá. A última coisa que ouví - através dum fulano que lhe dá explicações sobre a teoria do Origami - é que, alegadamente, consegue ver os decaimentos aleatórios de fotões e electrões e dessas coisas na sua própria retina, mas só depois de violentos espirros.
Olha, está uma tarde tão boa, vai um Gin-Tonic lá fora?

domingo, 27 de janeiro de 2008

Coming home

Ele até estava contente chegar a casa. Ainda chamava assim ao lugar de onde veio, embora que já vivia longe há mais de metade da sua vida. Teria de ir mais uma vez a arrecadação na cave do prédio, como em todas as visitas, para seleccionar restos da sua existência e dar-lhes um destino permanente. Mais uma vez, seria um encontro penoso. Ao longo dos anos já tinha há muito descartado tudo de pessoal, restavam apenas algumas obras, pinturas dos primeiros anos. Enquanto no caminho do aeroporto, revia cada uma a sua frente e sentia o nó por baixo do esterno porque sabia que também desta vez não conseguiria cortar o cordão.